Olá Cecylia, meu nome é Vanessa e achei seu blog há 6 dias. Li tantos relatos e homenagens que me convenci em escrever também.
Eu tenho um filho de 7 anos, é uma dádiva na minha vida, eu
o tive com 18 anos e sem dúvida ele é meu melhor amigo. É o máximo como ele é
inteligente e carinhoso, é um companheirão.
Eu estou casada há 3 anos com o pai dele e ainda não
planejávamos outro filho, mas este desejo estava se tornando cada dia mais
forte em mim e eu só estava esperando um momento para conversar com o meu
marido. Mas antes disso, engravidei!
Eu estava enjoando muito e não fazia idéia do que era, até
cair à ficha, eu e meu marido tínhamos tido uma relação sem proteção e ela
bastou. Comprei um teste de farmácia e fiz, não precisei esperar nada e lá
estava os dois riscos rosa. Eu pulei, agradeci, ri tanto que não cabia em mim
de tanta felicidade. Planejei como ia contar para todos, porque tudo ainda
estava em segredo. No mesmo dia do teste de urina corri para um laboratório e fiz
o exame de sangue e tive a confirmação.
Depois de uma semana curtindo a gravidez sozinha no meu
íntimo, juntei meus pais e meu filho e anunciei que meu filho teria um
irmãozinho. A cara de todos foi demais! Quando cheguei em casa meu filho contou
ao meu marido...e a cara dele foi demais também. Me abraçou e não conseguia
acreditar.
Desde então estava curtindo esta gravidez demais, muito mais
confusa que a primeira, porque nesta eu sentia enjoos diários, desejos, fome,
azia...o tempo todo.
Quando eu entrei no 6 mês meu querido Alan estava se mexendo
menos, eu via que todo mundo dizia que era normal.
O chá de bebê estava todo planejado, fiz os convites, as
cartelas para o tal do baby bingo, o bolo de fraldas...o quartinho já estava
montado e o enxoval praticamente pronto. Até as lembrancinhas de nascimento eu
já tinha comprado.
Eu já estava com 7 meses e meio e tive consulta com minha
médica dia 10/3/12 e ao chegar lá ela não achava o coração dele, mexeu, mexeu e
achou. Eu quase morri nessa angústia. Mas ele estava lá, batendo rapidinho.
Dia 20/3/12 eu comecei a me preocupar muito, pois parecia
que meu filho tinha parado de se mexer, mas toda vez que pensava isso eu sentia
ele mexer. Eu liguei para minha médica e ela me tranquilizou, disse que como
estava tudo normal, não tinha por que me preocupar e me pediu para ir no seu
consultório logo pela manhã do dia seguinte. Então lá fui eu, com o coração na
mão e segurando o choro, por que se estivesse tudo bem eu me desesperaria a
toa.
Ainda aconteceu a maior confusão, minha médica pediu para ir
a um consultório e ela estava em outro. Mesmo assim, lá fui eu pegar metro e ir
ao centro da cidade de São Paulo, eu precisava ver se estava tudo bem.
Lá, quando eu fui atendida ela não ouviu o coração do meu
Alan, eu tentei me manter calma, afinal na última consulta ela também demorou a
achar. Ela fez a recepcionista comprar outra bateria para o aparelho, pois ela
disse que estava fraco. Esperei mais uns 40 minutos e nós tentamos de novo.
Quando ela não ouviu eu caí num choro desesperado.
Se ele não estava mais mexendo e não dava para ouvir seu
coração...eu não tinha esperança alguma.
A médica fez uma cartinha para o Hospital Santa Joana, onde
eu teria meu filho, e solicitou um ultrassom de urgência, mas disse que alguém
teria que me buscar porque não ia me deixar sair sozinha. Meu marido não tem
carro, então liguei para o meu pai, disse que a médica tinha me mandado para o
hospital e ele perguntou o que tinha acontecido. Eu não conseguia falar e
comecei a chorar de novo. Ele foi me buscar correndo.
Eu não tenho palavras para explicar tudo o que eu estava
sentindo. Quando eu parei de chorar, algumas lágrimas escorriam dos meus olhos
sem força (como está acontecendo agora) e eu estava sem reação. Cheguei ao
Hospital e tive que passar no médico antes de fazer o ultrassom, ele tentou
novamente ouvir o coração do meu bebê, mas nada...
Ele me encaminhou ao ultrassom, todos que me atenderam foram
caridosos e tentaram me consolar... Apesar de não existir consolo algum!
No ultrassom estava lá meu Alan perfeito e paradinho. A
médica que fez o exame disse que a bolsa estava vazia e não tinha como saber o
que aconteceu, ele estava com edema no cérebro e com água no pulmão, todavia
não dava para saber se essas coisas tinham acontecido antes ou depois do óbito.
Aí foi só esperar a internação...
Quando eu estava fazendo a ficha, uma mulher super solícita
disse que o parto seria induzido e seria normal, disse ainda que eu não
sentiria dor, que eu tomaria anestesia quando o parto fosse acontecer, minha
médica seria chamada, pois eu estaria sendo monitorada.
Eu não tinha coragem de falar para o meu marido que nosso
bebê não nasceria mais com vida, mandei uma mensagem e ele me ligou chorando e
disse que estava indo ao hospital.
Eu não queria falar com ninguém... eu só queria chorar.
Quando eu já estava no quarto meu marido chegou e meu pai
foi embora, minha mãe iria buscar meu filho na escola e deixá-lo com uma amiga
para vir me ver.
Neste mesmo dia, mais ou menos 17h30 uma enfermeira colocou
um remédio para induzir o parto. Às 18 horas eu já sentia as contrações com
muita dor nas costas.
Chamei a mesma enfermeira e avisei que as contrações estavam
de 3 em 3 minutos. Ela fez o toque e disse que eu estava com 4 de dilatação.
Pediu-me que qualquer coisa diferente, ou se sentisse mais
dor que a chamasse.
Nesse meio tempo, uma amiga minha me ligou querendo
confirmar o dia do chá de bebê e eu tive que dizer que não teria mais chá e ela
veio correndo também para o hospital.
No quarto já estavam comigo, meu marido, minha mãe, meu pai
e minha amiga.
Minhas contrações avançavam muito rápido e eu estava
sentindo muita, muita dor, além da emocional.
Chamei a enfermeira e surpresa: troca de turno.
Outra enfermeira entrou no quarto e eu disse que as
contrações estavam durando mais de um minuto, a cada 1 minuto, ela disse
"está bom" e saiu do quarto. Nesse mesmo momento que ainda era apenas
19h e parecia uma eternidade... veio uma contração que não passava e eu comecei
a gritar de dor.
Entrou um monte de enfermeiras e iriam me levar ao centro
cirúrgico bem rápido, mas não deu tempo...em meio as enfermeiras me pedindo
para parar de gritar eu sentia já a cabeça do meu filho.
A contração parou e pulei para a maca...mas logo ela voltou
e eu empurrei com toda a força e a cabeça dele saiu...lá no quarto.
As contrações diminuíram de intensidade e quando cheguei no
centro cirúrgico uma enfermeira me pediu para empurrar com força que tinha o
corpinho dele para sair. Até a placenta saiu. Eu estava exausta...na minha
cabeça eu não teria dor, me garantiram isso.
Lá eu ouvi que a enfermeira chefe, que trocara o turno, nem
sabia de mim, e minha médica nem ao menos havia sido avisada.
Passado tudo isso, eu pedi para ver meu filho, não uma, mas
duas vezes. Arrependo-me de não ter pedido para pegá-lo no colo. Ele era tão
lindo! Perfeito! Parecia muito meu primogênito recém-nascido.
A enfermeira disse que provavelmente havia sido o cordão umbilical
que causou o óbito, porque ele estava com uma marca no pescoço, e meio roxinho.
Ela não podia ter certeza porque quando eu cheguei a cabeça já tinha saído.
No quarto do hospital, meu marido ficou comigo, muitas
pessoas foram me visitar, minha sogra até me ajudou, nem acreditei...e lá eu
estava mais tranquila, vivendo naquele quarto, onde todo mundo sabia o que
tinha acontecido. Ainda teve uma enfermeira sem noção que deu os parabéns ao
meu marido...nem imagino a cara dele.
No dia de ir embora, quando eu passei naquele
corredor...cheio de enfeites nas portas, flores e chorinhos de criança....por
um momento eu quis morrer para não ter que ver aquilo! Era lindo e um pesadelo
para mim, que estava indo embora de braços vazios.
Tudo ainda está muito recente...e tenho bons dias e outros
praticamente horrorosos. O quarto do meu Alan ainda está lá montado, não
consegui desfazê-lo. Eu só desfiz o bolo de fraldas e só....
Meu filho foi metade da minha vida durante toda a gestação...
Sempre agradeço por tê-lo recebido e tornado minha vida muito mais feliz, mesmo
que por pouco tempo. Acredito que tudo que aconteceu fazia parte do
"plano". Espero que aonde quer que ele esteja, esteja bem!
Sempre vou amar meu Alan e tenho certeza que todos também...
mas ninguém sentirá tanta falta dele como eu sinto!
Esse é meu relato, ainda sofro muito, e para ajudar meu
casamento não anda bem das pernas. Então só Deus sabe se um dia engravidarei de
novo, terei o tão desejado irmãozinho para o meu filho! Estou fazendo terapia,
mas tenho a sensação de que nada vai adiantar...
Queria ainda lhe dizer que seu blog tem me ajudado muito nos
meus dias ruins.
Obrigada
As fotos eu tirei no hospital, no dia 21/3/12.